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Quebrada 2G: morador diz que periferia é "ponto cego na telefonia móvel”

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2029-05-20T19:16:05

29/05/2019 16h05

Com apoio da plataforma Mosaico da Anatel, realizamos um monitoramento sobre a qualidade de sinal de operadoras de telefonia móvel nas "Quebradas do 2G", territórios onde o sinal de celular ainda é um desafio para a vida comunitária e comunicação com o mundo.  

Por Ronaldo Matos

No distrito de Marsilac, área com uma rica diversidade ambiental que integra o Pólo de Ecoturismo da cidade de São Paulo, instituído a partir da lei 15.953 de 7 de janeiro de 2014, mais de oito mil moradores convivem com o dilema de não ter acesso a um serviço de internet móvel de qualidade.

Com duzentos quilômetros quadrados de extensão territorial, representados em sua maioria por áreas verdes, o distrito não possui antenas de operadoras, segundo relatos dos moradores. A plataforma da Anatel classifica os sinais das operadoras: Tim, Oi, Claro e Nextel na região de Marsilac com baixíssima qualidade nas velocidades de transmissão de dados 4G, 3G e 2G.

Imagem oficial da plataforma da Anatel que realiza o monitoramento de sinal de telefonia móvel no Brasil.

A experiência do usuário registrada pelos moradores do bairro mostra o cenário do serviço de telefonia móvel na região. "O pouco de sinal que dá aqui é da Vivo e ainda assim é muito ruim, então a solução seria a instalação de antenas", conta Mauro Malafaia, morador do bairro de Engenheiro Marsilac.

Para acessar o sinal da operadora Vivo, Mauro descreve que é preciso subir na parte mais alta do bairro, próxima a um campo de futebol e aguardar a conexão aparecer. Ele relembra que esta situação já o levou a pegar uma condução para ir a outro bairro para usar o celular: "é frustrante né, você ter que pegar um ônibus e ir para outro bairro para usar o sinal de celular."

Malafaia lamenta o estado de abandono da telefonia em Marsilac enfatizando como "isso pode acontecer em pleno século vinte e um" e enfatiza que o distrito "é um ponto cego na telefonia móvel da cidade de São Paulo."

Concentração de sinal em São Paulo 

Um mapeamento realizado pela Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil), entidade que reúne mais de 100 empresas do setor do telecomunicação em todo o país, revela um enorme concentração de antenas localizadas na região central da cidade de São Paulo, demonstrando que a situação vivenciada cotidianamente por moradores do distrito de Marsilac não é novidade, se observamos com atenção o mapa de distribuição de antenas de celular, tecnicamente chamadas de Estação Rádiobase (ERB).

O levantamento atualizado a partir de dados disponibilizados pela Anatel mostra a diminuição de antenas instaladas nas regiões periféricas do município. Já nos bairros localizados na região central, é possível observar uma super concentração de antenas.

De acordo com dados do mapeamento da (Telebrasil), existem mais 6.800 antenas de celular na cidade de São Paulo. A operadora Vivo aparece com 23,65% das antenas instaladas, enquanto a Tim tem 22,74%, Claro 17,88%, Oi 23,88% e Nextel 11,85%.

Fonte: Mapa Telebrasil de Antenas de Celular no Brasil,  atualizado de acordo com dados fornecidos pela Anatel. 

Como se comunicar sem sinal no celular?

A produtora cultural Laura Silva mora no Jardim Embura, localizado na divisa do distrito de Parelheiros com Marsilac. Ela trabalha na Cia de Teatro Rokokóz, um coletivo de artistas da região que busca envolver os moradores do território em intervenções artísticas, organizadas em espaços abertos ao público, como praças e ruas do bairro.

"Na minha casa tem internet com um mega de velocidade", conta a produtora cultural sobre o sinal da operadora Vivo, que chega ao seu bairro em Parelheiros, apenas com planos de internet fixa.

Ela conta que a falta de acesso a internet impacta na divulgação das atividades desenvolvidas pelo coletivo nas redes sociais, com isso, eles passaram a procurar outras formas de divulgar os eventos junto aos moradores. "As estratégias de divulgação aqui são outras, nós distribuímos panfletos nas escolas e os agentes de saúde ajudam e colam cartazes nos comércios."

Para ampliar o alcance de público, ela recorre também a outros meios de divulgação: "quando a gente vai fazer os eventos, a gente passa com o carro de som, avisando os moradores e os jovens que são atendidos em serviços sociais do bairro."

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre os autores

O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Sobre o Blog

Como a vida dos moradores das periferias vem sendo impactada pela revolução digital que transformou as relações sociais, econômicas, culturais e políticas? É isso que o coletivo de jornalismo Desenrola E Não Me Enrola vai contar aqui no blog, trazendo histórias diretamente de quebrada para você conhecer de maneira mais aprofundada esse contexto social que mescla recursos mobile, consumo, comportamento, redes sociais e inovação. Site: https://desenrolaenaomenrola.com.br/