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Doação de notebooks transforma vida universitária de jovens das periferias

Quebrada Tech

24/07/2019 10h24

Graziele Araújo, moradora de Mauá, estudante de química industrial utiliza o notebook doado pela InfoPreta para conseguir entregar os trabalhos da  faculdade de forma autônoma. 

Inclusão digital, melhor aproveitamento em sala de aula e autonomia para produzir trabalhos acadêmicos são alguns dos impactos gerados na vida de jovens das periferias pela InfoPreta, iniciativa que recicla notebooks para doar a estudantes universitários da quebrada. O projeto já recebeu cerca de três mil e-mails solicitando doações de computadores.

Por Tamires Rodrigues | Edição de Ronaldo Matos

A campanha "notes solidários da Preta", um projeto de doações de notebooks para estudantes universitários de baixa renda, está contribuindo para inclusão digital e o processo de aprendizagem de jovens que moram nas periferias de São Paulo.

Organizado pela InfoPreta, empresa de reparos e serviços de tecnologia, Graziele Araújo, moradora de Mauá, foi uma das beneficiadas.

Ela iniciou os estudos em química industrial na Universidade Federal de São Paulo, em Diadema. Porém, a falta de um computador fez com que Graziele tivesse dificuldades para organizar a entrega de trabalhos, motivando ela se inscrever no projeto da InfoPreta. "Eu tinha que fazer com algum amigo para conseguir entregar o trabalho. Então foi um semestre complicado", relata a estudante, que recebeu a doação do seu notebook há um mês.

A empresa InfoPreta foi criada há 4 anos por Akin Abaz, homem negro, transexual, que usa o seu conhecimento profissional e experiência de vida para fazer de sua profissão um instrumento de inclusão. O foco é contribuir para que pessoas negras e lgbts ingressem no mercado de trabalho na área da tecnologia. A empresa tem atuação dedicada à manutenção de Hardware e Software de computadores, e atua hoje no bairro de Pinheiros, zona oeste de cidade.

Durante a sua graduação, Akin encontrou dificuldades exatamente devido a falta de um computador próprio que o auxiliasse nos estudos. Ao ver que alguns amigos também não tinham condições de adquirir um notebook, refletiu sobre as barreiras que jovens moradores das periferias precisam ultrapassar para realizar as suas atividades acadêmicas.

Recentemente, a campanha "notes solidários da Preta" viralizou nas redes sociais. A repercussão resultou no crescimento do público que faz as doações e quem as solicita. "Tem um tempinho que o projeto viralizou e a gente recebeu cerca de três mil e-mails", relata a equipe do InfoPreta, um grupo de homens e mulheres que fazem questão de responder juntos as perguntas realizadas pela repórter do Quebrada Tech. O ato coletivo revela a cultura de relacionamento humano dentro da empresa.

Com o crescimento do número de doações, os critérios de seleção ajudam a definir os destinatários dos computadores pessoais. Tudo é voltado para estudantes universitários de baixa renda, mas as prioridades são mulheres, mães, pessoas negras, lgbt+ e pessoas com deficiência.

"Nós sabemos que a graduação já não é fácil para essa galera que é o nosso público. Muitas vezes a universidade é um ambiente hostil. Então se a gente puder auxiliar um pouco nessa etapa, já é ótimo", enfatiza a equipe em tom de entusiasmo com os impactos que o projeto vem causando na vida dos estudantes.

Os equipamentos que chegam até as mãos da equipe da InfoPreta são avaliados para saber o que está funcionando. Em meio a esse processo, eles avaliam se vale apena fazer a manutenção ou reutilizar as peças, dividindo as tarefas conforme tipos de equipamentos, peças e tempo.

Lucas Alves, morador de Guarulhos, conheceu a iniciativa por meio de sua professora durante o tratamento de um câncer, realizado no Hospital GRAAC, em São Paulo. Quando descobriu a doença, estava começando o curso de licenciatura em Letras, no Instituto Federal de São Paulo.

O notebook doado pela InfoPreta foi essencial para que ele conciliasse o estudo com o tratamento. O jovem teve aulas de inglês, biologia, química, física. Tudo dentro do hospital. Nesse processo, o computador se tornou a sua principal ferramenta para sanar dúvidas e curiosidades.

Mesmo precisando trancar a faculdade, o notebook doado também serviu como uma válvula de escape que o ajudou a aliviar os momentos de tédio e preocupação.

"Quando o notebook chegou, eu estava mal, e sem nada pra fazer. Ele me ajudou a ocupar a minha mente num momento difícil e a estudar um pouco", relembra Alves. "Eu uso bastante o Opera pra fazer pesquisas, Word e PowerPoint. Porque eu ainda tenho aulas com os professores no hospital", acrescenta, descrevendo com simplicidade os programais mais usados por ele para produção de texto e criação de apresentações.

"Tem uma moça que fez a graduação com um notebook que doamos e agora ela está fazendo a pós-graduação com outro que doamos pra ela também'', conta a equipe, ressaltando que o acesso a um equipamento simples permite uma transformação estruturante na vida universitária de jovens moradores de territórios periféricos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre os autores

O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

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Como a vida dos moradores das periferias vem sendo impactada pela revolução digital que transformou as relações sociais, econômicas, culturais e políticas? É isso que o coletivo de jornalismo Desenrola E Não Me Enrola vai contar aqui no blog, trazendo histórias diretamente de quebrada para você conhecer de maneira mais aprofundada esse contexto social que mescla recursos mobile, consumo, comportamento, redes sociais e inovação. Site: https://desenrolaenaomenrola.com.br/

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