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Sem sinal? Paraisópolis cria operadora de celular para atender moradores

Quebrada Tech

19/02/2020 04h00

Paraisópolis é a segunda maior favela de São Paulo e abriga mais de 100 mil moradores (Léo Britto/DiCampana Foto Coletivo)

O desgaste que os moradores já passaram com diversas operadoras de celular vão de planos de adesão de pacotes de dados com valores fora de contexto à má qualidade de sinal dentro da quebrada. Essas falhas na prestação de serviço deram origem a Paraisópolis Celular, iniciativa que vem atuando não só para vender serviços, mas também para trazer dignidade para quem mora na segunda maior favela de São Paulo.

Por Tamires Rodrigues e Ronaldo Matos

Investir em infraestrutura de cabeamento de fibra óptica, aumentar o número de antenas de transmissão de sinal de celular e criar planos de adesão de pacotes de dados e ligações para atender a demanda dos moradores de uma favela ainda é uma realidade distante das estratégias de mercado das grandes operadoras de celular no Brasil. Mas como fica a vida dos moradores que precisam do celular para se conectar com o mundo?

Uma resposta para este cenário surgiu em novembro de 2019, quando nasceu a Paraisópolis Celular, uma operadora de celular própria da segunda maior favela de São Paulo, que abriga mais de 100 mil moradores.

"O que acontece no mundo inteiro não chega aqui em Paraisópolis, como os aplicativos de bicicleta e patinete. A nossa internet aqui não é tão boa. Algumas empresas não colocam cabeamento aqui porque acham que as pessoas vão roubar . A comunidade tem o acesso aos serviços limitado, como se a gente não fizesse parte da cidade", diz Gilson Rodrigues, presidente da Associação Comercial de Paraisópolis.

Operando há quatro meses na comunidade, a operadora de celular vende  em média de 1.400 a 1.500 chips por mês. "É isso que a gente percebe para o futuro: tudo que não for possível e que a cidade tem acesso, a gente quer que a cidade informal construa, e isso que a gente tá buscando", afirma Rodrigues.

A operadora atua por meio de uma parceria entre a Associação Comercial de Paraisópolis e empresa de tecnologia brasileira Dry Company.

A Dry Company fornece o suporte técnico e a estrutura tanto da rede de telefonia como do funcionamento da loja, por meio de uma rede compartilhada, que utiliza rede de outras operadoras no modelo MVNO (Mobile Virtual Network Operator ou operador móvel virtual). Já a Associação Comercial atua para construir uma boa experiência de usuário junto aos moradores, fazendo a comunicação do serviço. Um dos diferenciais do negócios é que parte da renda é destinada a projetos sociais da comunidade.

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Usa mais telefone do que internet

Durante o pouco tempo que a operadora de celular está ativa, já foi possível identificar alguns comportamentos característicos dos moradores. Segundo Ronaldo Yoshida, diretor da Dry Company , 53 % da população de Paraisópolis têm parentes nas regiões nordeste e no norte do Brasil, que não têm celulares tão sofisticados. Por isso, os moradores da quebrada costumam usar mais ligações de telefone do que internet para se comunicarem. "Eles precisam falar. Lá os parentes têm telefones simples, não vão usar planos de dados", diz Yoshida.

Atualmente a operação da Paraisópolis Celular é voltada somente para o pré-pago. Os planos são caracterizados para ligação em qualquer DDD ilimitado , com planos que vão de R$ 20 a R$ 75. Todos  os pacotes incluem WhatsApp ilimitado e acúmulo de benefícios –caso o cliente não use todo seu plano no mês, ele pode acumular para o mês seguinte.

"Foi um desafio grande, é o primeiro projeto desse tipo no mundo, é um projeto inovador. Se você procurar no mundo todo, não vai existir nada igual", afirma o diretor.

Hoje a empresa tem um aplicativo para o usuário final. A operadora busca parcerias com empresas para disponibilizar  benefícios no app, como descontos em rede de farmácias e outros comércios.

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Susto com celular sem sinal

Umas das pessoas que se beneficia dos serviços oferecidos pela operadora é Conceição Leide , moradora que tem uma loja de variedades dentro de uma galeria, em Paraisópolis, Ela conta que quando usava outras operadoras tradicionais do mercado, o sinal não pegava dentro da loja, e todas as vezes que precisava acessar a internet ela tinha que sair da loja e ir para rua.

Outra experiência da moradora retrata a importância do sinal de celular em casos de emergência. "Meu filho passou mal na escola e não conseguiram falar comigo, porque o celular não pega aqui. Aí minha amiga veio me avisar", afirma Conceição.

Conceição ainda comenta que gostou da internet oferecida pela operadora Paraisópolis, mas tem algumas ressalvas. Ela acredita que ainda tem poucos pontos de recarga na favela e vem encontrando algumas dificuldade quando precisa fazer uma recarga urgente.  "Fica mais complicado quando eles não estão abertos, aí a gente não consegue fazer recarga."

A moradora acredita que o fato de Paraisópolis ter uma rede própria de celular é uma vantagem. "A gente precisa ter várias coisas aqui para a comunidade ir usufruindo e melhorando mais. Uma rede de celular para a gente aqui é muito bom, principalmente se ela funcionar melhor que as outras."

Sobre os autores

O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Sobre o Blog

Como a vida dos moradores das periferias vem sendo impactada pela revolução digital que transformou as relações sociais, econômicas, culturais e políticas? É isso que o coletivo de jornalismo Desenrola E Não Me Enrola vai contar aqui no blog, trazendo histórias diretamente de quebrada para você conhecer de maneira mais aprofundada esse contexto social que mescla recursos mobile, consumo, comportamento, redes sociais e inovação. Site: https://desenrolaenaomenrola.com.br/

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