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Jovens da quebrada invadem TikTok para aliviar tédio e tensão da quarentena

Quebrada Tech

08/04/2020 04h00

Guilherme Oliveira é um dos usuários que adotou o app como forma de quebrar o isolamento social (Tamires Rodrigues)

Para jovens nas periferias de São Paulo, o TikTok virou o aliado do combate ao tédio na quarentena. Por meio da publicação e interação com vídeos curtos engraçados, o app promove  um distanciamento de notícias tensas que aparecem no feed de outras redes sociais.                          

Por Tamires Rodrigues

Chega de vídeos longos em lives e entrevistas, notícias diversas rolando no feed e aquelas páginas de memes que só retratam conteúdo sobre a pandemia de coronavírus. Enquanto a quarentena e o isolamento social são adotados pela população jovem nas periferias, reações de aversão ao bombardeio de informações sobre a pandemia ganham força. Uma das consequências é a juventude, em especial da comunidade LGBTQ+, migrar para o TikTok, rede social de origem chinesa de publicação de vídeos curtos, como meio digital de interação e diversão.

"Agora com a quarentena eu fico horas e horas no TikTok. Eu paro de trabalhar e, ao invés de abrir o Facebook ou Instagram, abro o Tik Tok", conta Guilherme Oliveira, 23, morador do Jardim Rosana, periferia da zona sul de São Paulo. Ele acredita que a rede social tem contribuído para aliviar as tensões do isolamento causadas pelo grande fluxo de informações sobre a pandemia. "No TikTok tem todo esse alívio do estresse que a gente tá vivendo com tanta informação".

O TikTok é conhecido por suas funcionalidades de criar vídeos curtos, permitindo que seus usuários compartilhem suas próprias coreografias de dança ou performando músicas famosas. Segundo relatório divulgado pela assessoria Sensor Tower, o aplicativo foi baixado 740 milhões de vezes em 2019, se tornando o segundo mais baixado no mundo.

"Qualquer um pode entrar e fazer as danças, as coreografias, fazer dublagens, você não precisa ter uma grande estrutura, ser famoso ou receber like. Você só precisa gravar e todo mundo é aceito", diz

Oliveira afirma que encontra pouca diversidade de usuários no aplicativo, pois vê poucas pessoas da periferia na plataforma. Segundo ele, esse fator social contribui para os conteúdos seguirem um padrão estético. "O TikTok parece uma rede social dos ricos, sabe? Quando entra lá você vê muita coisa, tipo umas casas enormes, umas casas com piscinas, brasileiros que vivem nos Estados Unidos e ficam gravando vídeos. É muito aquelas cenas que a gente vê dos youtubers famosos", diz.

O jovem transformou essa percepção em uma "insatisfação" e como um bom "TikTokers de Quebrada" resolveu espalhar essa informação para pessoas da sua rede de contatos e trazer seus amigos e até parentes para criar conteúdos e se divertir junto com ele.

"Durante a quarentena, pelo menos 90% dos meus amigos baixaram, eles postam uma vez por semana, alguns postam todo dia, até minha tia baixou o TikTok", afirma.

Drag queen diverte a família

O professor de inglês Matheus Melo, 19, morador de Diadema, na região do ABC Paulista, passa a maior parte do seu tempo em casa, e pelo aplicativo encontrou um meio de expressar sua arte, apresentando sua personagem drag queen Alice. "Eu invento coisas para o tempo passar, inclusive o Tik Tok foi uma coisa legal, e ao mesmo tempo, para ganhar algum tipo de visibilidade", afirma Melo, que normalmente faz vídeos rápidos voltados para tutoriais de maquiagem.

Ele está em uma fase de descoberta da sua identidade drag, mas já sabe que gosta de fazer conteúdos para as pessoas rirem e se divertir, e por meio da plataforma ele sente que consegue performar todas suas ideias de uma maneira particular. "Eu gosto muito dos efeitos de edição, porque você consegue dar corte, fazer os takes, você consegue colocar um efeito engraçado, um efeito colorido", afirma.

Mas os familiares deles que estão em casa e são atualmente as pessoas que ele mais socializa não estão ligados na plataforma. Nem por isso Melo perde a oportunidade de se mostrar para sua família. Em encontros pelos cômodos da casa e durante conversas rotineiras, ele costuma  mostrar os vídeos que fez para sua mãe e avó. Para ele, esse processo é uma forma de distraí-las nesses tempos caóticos da pandemia.

"Em relação aos vídeos, não tem nenhum vídeo meu montado só de peruca dando um close, mas minha vó fala que é legal, ela dá risada. Ela casca o bico de rir. Minha mãe faz os comentários falando que é legal e dá risada. Esses dias eu publiquei um vídeo e ela falou: nossa que mulher debochada!"

Sobre os autores

O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Sobre o Blog

Como a vida dos moradores das periferias vem sendo impactada pela revolução digital que transformou as relações sociais, econômicas, culturais e políticas? É isso que o coletivo de jornalismo Desenrola E Não Me Enrola vai contar aqui no blog, trazendo histórias diretamente de quebrada para você conhecer de maneira mais aprofundada esse contexto social que mescla recursos mobile, consumo, comportamento, redes sociais e inovação. Site: https://desenrolaenaomenrola.com.br/