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Quebrada Tech

Compartilhar wi-fi ajuda quebrada a ter informação e lazer durante pandemia

Quebrada Tech

22/04/2020 04h00

Projeção com a mensagem "fique em casa" é projetada em rua da zona leste de São Paulo (Coletivo Cultural da Ocupação Ermelino Matarazzo)

Diante da pandemia de coronavírus, agentes culturais da Ocupação Cultural Mateus Santos, em Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo, perceberam que muitos moradores do bairro não tinham acesso à internet e que esse fato era um agravante para manter as pessoas em casa, garantir acesso à informação e ao entretenimento.

Por Tamires Rodrigues

Tecnologias de sobrevivência são construídas cotidianamente nas periferias. Mas como se proteger da pandemia de coronavírus se parte dos moradores dos territórios periféricos não têm acesso ao mundo digital? Num momento em que o governo pede para que as pessoas fiquem em casa, solicitem o auxílio emergencial por meio de sites e aplicativos, realizem o estudo à distância por meio de plataformas de EAD, o acesso a internet se torna um item essencial para garantir o direito à vida.

Uma proposta para reduzir os impactos desta dura realidade na vida de muitos moradores de Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo, foi a criação da campanha "Internet Solidária", na qual agentes culturais e artistas que fazem parte da Ocupação Cultural Ermelino Matarazzo irão realizar uma série de transmissões ao vivo com shows de artistas locais para mobilizar moradores da região a tomar a importante decisão de compartilhar sua internet com vizinhos que não têm como contratar o serviço. 

"Nesse momento é crucial tanto para acesso a informações, quanto para diminuir os efeitos do isolamento social, podendo ter acesso a lazer e também ao estudo, que são direitos básicos da população", afirma Gustavo Soares, um dos articuladores culturais da Ocupação Cultural Ermelino Matarazzo, um espaço cultural independente gerido por coletivos artísticos e culturais que atuam nas periferias da zona leste de São Paulo. 

Desde o dia 20 de março, a ocupação cultural suspendeu todas as suas atividades por tempo indeterminado por causa da pandemia do novo coronavírus. Mas com muitas demandas de moradores em estado de alta vulnerabilidade social na região, o espaço se tornou uma referência de articulação comunitária, promovendo campanhas de doação de kits de higiene e organizando lives com artistas locais. 

Uma dessas campanhas é a "Internet Solidária", iniciativa que procura diminuir os efeitos do isolamento social, incentivando os moradores do bairro a criarem seus próprios pontos de acesso à internet. "Essa foi uma forma que a gente conseguiu pensar para a galera não precisar sair de casa e ir até algum ponto que tem internet livre e, ao mesmo tempo, se manter em casa para ter opções e assim manter a sanidade", diz Soares. 

A campanha funciona assim:  o morador coloca o nome da rede wi-fi de "Fiqueemcasa" e muda a senha para "Fiqueemcasa", criando uma rede de colaboração entre os próprios moradores e possibilitando o acesso à internet para o maior número de pessoas.

Soares conta que a praça de wi-fi livre mais próximo do bairro está situado na praça Praça Giovanni Fiani, no bairro Ponte Rasa, localizado a 3 km da ocupação cultural. "Tem 'mó' galera que às vezes sai de casa para vir para frente da ocupação e usar nossa internet, porque nossa internet é aberta", acrescenta.

Soares complementa que ainda não consegue prever quais serão os resultado da campanha, mas permanece  otimista com as iniciativas durante a pandemia.  "Tivemos comentários bem positivos, mas a campanha começou há pouco tempo, então ainda não dá para avaliar os resultados. Esperamos que agora tenham muitos pontos de acesso na quebrada."

Iniciativas como a dos agentes culturais da Ocupação Ermelino Matarazzo, geradas com baixo custo e com grande possibilidade de impacto real na vida das pessoas, são por enquanto a maior e melhor oportunidade de acesso à internet para quem não tem condições de contratar o serviço nas periferias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre os autores

O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Sobre o Blog

Como a vida dos moradores das periferias vem sendo impactada pela revolução digital que transformou as relações sociais, econômicas, culturais e políticas? É isso que o coletivo de jornalismo Desenrola E Não Me Enrola vai contar aqui no blog, trazendo histórias diretamente de quebrada para você conhecer de maneira mais aprofundada esse contexto social que mescla recursos mobile, consumo, comportamento, redes sociais e inovação. Site: https://desenrolaenaomenrola.com.br/