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Quebrada Tech

Campanha pede doações de 4G para jovens da quebrada estudarem para o Enem

Quebrada Tech

17/06/2020 04h00

O estudante Ryan Roris usa o celular para fazer pesquisas durante os estudos para o Enem (Arquivo pessoal)

Campanha quer garantir pacote de dados 4G para 5.000 estudantes das periferias e favelas de diferentes estados que estão se preparando para o Enem.

Por Tamires Rodrigues e Ronaldo Matos

Uma rede de cursinhos populares criou o "4G para Estudar", uma plataforma de doações online onde pessoas podem contribuir com um valor equivalente a um plano de pacote de dados 4G que será entregue a um morador da quebrada que está se preparando para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), mas está com dificuldades de estudar devido à má qualidade da internet nos territórios periféricos.

O movimento irá impactar estudantes da rede pública de ensino nos estados de Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo. Nesses estados, cursinhos populares atuam em diversas frentes com o objetivo de garantir que jovens das periferias tenham uma experiência qualificada para se preparar para o Enem e que mais moradores da quebrada tenham chances de atingir o ensino superior.

Um dos participantes do movimento "4G para Estudar" é a Rede Ubuntu, iniciativa criada em 2013 por um grupo de educadores populares e estudantes universitários da zona sul de São Paulo. Segundo Rafael Cícero, coordenador pedagógico da Rede Ubuntu, a participação de cursinhos populares de diversas regiões brasileiras é uma forma de garantir que o projeto de fato democratize a internet em vários cantos do país.

Para dar acesso à internet para os alunos, os cursinhos decidiram adquirir chips e comprar planos de dados. Para alunos que já têm chip será entregue apenas o plano de dados mensal. A escolha da operadora para compra dos chips terá um mapeamento de região, verificando qual território tem maior qualidade de sinal.

Os cursinhos também pretendem arrecadar fundos mensalmente para impactar 5.000 alunos selecionados para receber os pacotes de dados.

De acordo com Cícero, o movimento também quer chamar a atenção de empresas de telecomunicações para apoiar a mobilização. "Para esse momento importante que o país está vivendo, precisamos cobrar as operadoras para que elas se disponibilizem e contribuam com esse debate". Para Cícero, a pandemia expôs a fragilidade do sistema público de educação. "Mesmo sem pandemia, os alunos aprendem muito pouco na escola daquilo que o Enem e o vestibular cobram".

Segundo a Anatel, somente na cidade de São Paulo, município onde a Rede Ubuntu atua, há mais de 24 milhões celulares. Destes, sete milhões são utilizados no formato pré-pago e 17 milhões são utilizados como pós-pagos. A plataforma Telebrasil afirma que para atender essa demanda de usuários de smartphones há mais de sete mil antenas de celular espalhadas pela cidade. No mapeamento mais recente realizado pela Associação Brasileira de Telecomunicações, as antenas que distribuem o sinal de internet para celular estão concentradas em sua maioria na região central da capital paulista, ficando as periferias com uma taxa reduzida de cobertura de sinal.

Pensando na imensa desvantagem que seus alunos já enfrentavam antes da pandemia chegar às periferias e levando em consideração o quanto essa condição de vulnerabilidade aumentou, a Rede Ubuntu vem criando estratégias para ajudar seus alunos. "Muitos dos nossos alunos iam a biblioteca estudar durante a semana, utilizavam o computador da biblioteca. Agora, sem poder ir presencialmente nesses espaços, eles também sofrem mais por falta de condições estruturais para estar estudando", diz o coordenador pedagógico.

Um dos caminhos alternativos para manter a realização das aulas foi a oferta de conteúdos digitais didáticos para os alunos, seguindo o cronograma já adotado durante os encontros presenciais, que aconteciam aos finais de semana.

"A gente aderiu ao Google Sala de Aula, depois começamos a arquivar todo material de cursinho e de aula, que os alunos têm acesso por email. Em seguida, a gente começou a oferecer videoaulas, por meio do Youtube", diz Cícero. As videoaulas podem ser acessadas a qualquer momento.

Percebendo que muitos alunos não estavam acessando o material por falta de internet, a Rede Ubuntu enxergou no movimento "4G para Estudar" uma forma de democratizar o acesso à internet para os alunos durante a preparação do Enem.

Caio dos Santos se preparando para o Enem em sua casa (Arquivo pessoal)

Não deixar a dúvida passar em branco

Gerontologia, nutrição ou medicina são as opções que Caio dos Santos, 24, morador da periferia do Campo Limpo, zona sul de São Paulo, pretende escolher para o ensino superior. Essas se tornaram suas motivações para se adaptar a nova rotina de estudo e organização durante a pandemia.

"Nesse meio tempo, bem no começo, eu estava sem internet, então fiquei estudando só por meio de livros mesmo", conta Santos. Os livros não sanavam todas suas dúvidas. A falta de internet colaborava com um acesso limitado às informações, quando se remete a estudar para uma prova que abrange todo conteúdo do ensino médio.

"Agora, com qualquer dúvida que eu tenho ou alguma dificuldade de entender o exercício, posso pesquisar pela internet para não deixar passar em branco. Era o que acontecia muito. Eu estudava com livros e algumas coisas ficavam em branco e eu precisava anotar para sanar essas dúvidas com alguém ou em uma próxima tentativa de fazer os exercícios", diz.

Sobre suas perspectivas para o dia da prova, que não tem data definida ainda, Santos se diz confiante por ter mais tempo para estudar e por estar usando bons hábitos de organização, procurando usar o tempo a seu favor.

Barreira da desigualdade

Outro aluno da Rede Ubuntu é Ryan Roris, 17, morador do Jardim das Oliveiras, bairro de Itapecerica da Serra (SP). Durante a pandemia, o jovem divide sua rotina entre estudar para terminar o terceiro ano do ensino médio e se preparar para o Enem. Ambas as atividades necessitam de internet, e Roris vem se adaptando às oscilações de sinal para entregar suas atividades.

"Teve uma semana que era para entregar as atividades, e minha internet não queria funcionar. Tive que usar meus dados móveis para passar para o notebook", conta.

Roris mostra a importância do apoio da família e de ter um notebook para realizar as atividades escolares. "Estou pesquisando alguns cursos online, mas não é nada certo porque eu tenho que ficar indo na casa da minha irmã, por conta do notebook e porque a internet lá é melhor, e assim está dando para continuar os estudos durante esse caos", diz.

Para além da internet de má qualidade, outro impacto negativo na rotina de estudos do aluno é a falta de concentração. "É bem difícil ter total concentração. Às vezes minha mãe me chama para fazer alguma coisa, às vezes as pessoas aqui de casa começam a falar e você acaba desconcentrando. Eu tento sempre manter o foco, por mais difícil que seja".

Com poucas esperanças sobre o futuro nos estudos, Roris sabe que não é só seu esforço que basta. Para o estudante, ainda existe uma barreira chamada desigualdade. "Se a tecnologia está avançada, deveria não ser apenas para as pessoas que têm mais classe, que têm mais condições. E sim, também aqui na periferia, porque a minha condição não quer dizer que eu não possa chegar lá em cima também, assim como alguém que tenha todos os recursos", afirma.

Para continuar na luta por uma boa nota no Enem, Roris diz que busca forças nos ensinamentos e vivências dos seus pais. "Aqui em casa mesmo, a única que tem um diploma de faculdade é minha irmã. Meus pais sempre falam para eu estudar e ter um diploma e uma vida boa, sabe? Eles não completaram o ensino fundamental e não querem isso para mim. Querem um processo bem diferente do deles e melhor".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre os autores

O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Sobre o Blog

Como a vida dos moradores das periferias vem sendo impactada pela revolução digital que transformou as relações sociais, econômicas, culturais e políticas? É isso que o coletivo de jornalismo Desenrola E Não Me Enrola vai contar aqui no blog, trazendo histórias diretamente de quebrada para você conhecer de maneira mais aprofundada esse contexto social que mescla recursos mobile, consumo, comportamento, redes sociais e inovação. Site: https://desenrolaenaomenrola.com.br/