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Vozes da quebrada: podcasts viram canal para aproximar mulheres nos bairros

Quebrada Tech

02/09/2020 04h00

A Coletiva Subversiva é formada por jovens comunicadoras de Parelheiros, zona sul de São Paulo (Arquivo pessoal)

Comunicadoras que atuam nos distritos de Parelheiros e Capão Redondo, em São Paulo, estão apostando no podcast como ferramenta mais acessível e democrática para criar um diálogo mais próximo e afetivo com moradoras das quebradas de São Paulo.

Por Tamires Rodrigues

"Não queremos e não podemos falar pelo território, devemos falar com o território, falar com as mulheres que aqui estão", afirma Beatriz Klein, 18, moradora nascida e criada em Parelheiros, distrito da zona sul de São Paulo. Ela é integrante da Coletiva Subversiva, um grupo de cinco mulheres comunicadoras da região que criaram o podcast "Balbúrdia" com o intuito de informar principalmente as mulheres do bairro.

Maternidade da mulher negra, autocuidado da mulher da periferia, educomunicação e educação sexual são alguns dos temas já abordados pelo podcast Balbúrdia. Segundo a produtora, os conteúdos servem como pontes entre mulheres para que elas possam expressar suas subjetividades em um espaço digital. "As convidadas são mulheres que são referência para nós e que nos inspiram, mulheres periféricas que sempre somam com o território de forma positiva e transformadora", afirma Beatriz.

O podcast surge como um processo de diálogo coletivo. O bate-papo que dá origem a entrevista é realizado através de uma reunião no Google Meet. "Gravamos esse bate-papo, então a conversa fica mais orgânica e conseguimos interagir muito mais e ainda respeitamos o isolamento", diz.

A periodicidade dos episódios é quinzenal, porém a maior dificuldade encontrada pelo grupo para produzir não é a elaboração de conteúdo, mas sim a conexão de internet que muitas vezes costuma cair no momento das reuniões online que dão origem às entrevistas. "Na maioria das gravações caímos da reunião em muitos momentos. Isso atrapalha porque perdemos a meada da conversa durante a gravação", relata Beatriz.

A inspiração vinda da troca de saberes por meio da comunicação é o que mantém o podcast na ativa, apesar das dificuldades para acessar uma internet de qualidade. "Acreditamos na importância de trocar saberes e alimentar o nosso aquilombamento", afirma.

"Quilombos duraram e resistiram por décadas nesse país, eles se ensinavam e se escutavam, aprenderam a lutar, a plantar. Sempre lembro que Teresa de Benguela criou um parlamento dentro do quilombo para que tomassem decisões justas e alinhadas", acrescenta.

Beatriz Klein ressalta a importância de destacar pessoas negras como referências nos conteúdos produzidos. "Buscamos em conjunto racializar nossas pautas e lembrar sempre que antes de qualquer característica ou situação social, o que chega primeiro é a cor da pele".

O podcast está disponível no SpotifyGoogle Podcasts, Anchor e Overcast

Ele é dividido em blocos e a transição de um  bloco para o outro é por meio de uma música de autoria das próprias convidadas.

A jornalista Gisele Alexandre produz o podcast Manda Notícias em sua casa ( Alex Silva)

Informação de qualidade sobre a pandemia

No início da pandemia, a jornalista Gisele Alexandre começou a se perguntar como iria contribuir para levar informação para o seu bairro. Neste meio tempo, ela começou a receber mensagens no seu WhatsApp de pessoas que estavam com dúvidas sobre o novo coronavírus. "Aí eu pensei: via áudio parece que eu consigo esclarecer as dúvidas e passar isso para mais gente, Foi então que surgiu a ideia de montar um podcast", diz.

A moradora do Parque Munhoz, no distrito Capão Redondo, zona sul de São Paulo, criou o podcast "Manda Notícias", um boletim informativo com as principais notícias sobre a pandemia de covid-19.

Gisele levou uma semana para elaborar a ideia do podcast, começando pelo aprendizado do uso de softwares para edição de áudios, e colocou no ar.

"Fiz um lista de distribuição no WhatsApp com 200 números de amigos, colegas e familiares. Essas pessoas me acionavam mais, e mandei o podcast para eles", diz a jornalista sobre o inicio dos trabalhos para distribuir o podcast.

A partir do feedback dos moradores, a jornalista foi percebendo novas possibilidades para o conteúdo ter maior alcance, construindo uma página de divulgação no Facebook e mensagens instantâneas no WhatsApp .

"Minha grande preocupação sempre foi levar informação de qualidade", afirma Gisele. Ela diz que uma de suas maiores dificuldades para a produção do podcast foi a falta de dados públicos para conseguir passar informação de qualidade para seus ouvintes.

Para lidar com essa falta de transparência do poder público, a jornalista adotou novas estratégias para captação de dados de forma orgânica e consistente. "Eu me inscrevi em todos os meios de informação oficial, no Telegram do governo do estado, ficava no pé da prefeitura, com e-mails diretamente para a prefeitura, para a secretaria de saúde", detalha.

Além do intuito de democratizar o acesso à informação, a jornalista ressalta a necessidade de potencializar e fazer com que vozes femininas ocupem o espaço na comunicação digital. "O machismo existe em todas as relações. E isso não é diferente na comunicação, pelo contrário", afirma.

Gisele considera que os melhores meios para se ter mais pluralidade de vozes se expressando na comunicação digital é a partir da autoafirmação das mulheres. "O que a gente consegue é entender um pouco mais esse nosso lugar, e se expressar a partir disso".

Recentemente o episódio do podcast Manda Notícias que traz a pauta de violência contra mulher foi premiado como segundo melhor podcast pelo Instituto Jatobás, organização que vem investindo em projetos de combate às desigualdades sociais nas periferias de São Paulo.

Gisele relata que após produzir 60 episódios durante cinco meses com conteúdos publicados toda segunda-feira, quarta-feira e sexta-feira, foi possível formar uma lista de transmissão com 500 pessoas. Após atingir essa audiência, Gisele resolveu encerrar a temporada para pensar em novas abordagens que tenham mais elementos para uma comunicação eficiente.

"Eu encerrei a primeira fase para pensar em um Manda Notícias do futuro. O que eu posso contribuir para essas relações que estabeleci é através do podcast", finaliza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre os autores

O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Sobre o Blog

Como a vida dos moradores das periferias vem sendo impactada pela revolução digital que transformou as relações sociais, econômicas, culturais e políticas? É isso que o coletivo de jornalismo Desenrola E Não Me Enrola vai contar aqui no blog, trazendo histórias diretamente de quebrada para você conhecer de maneira mais aprofundada esse contexto social que mescla recursos mobile, consumo, comportamento, redes sociais e inovação. Site: https://desenrolaenaomenrola.com.br/